sábado, 16 de outubro de 2010

O homem que afinal vê!!

Bem...deu-me o apreço e o gosto de vos contar hoje uma curiosa história. Andava eu no hospital ( com os afazeres de sempre), quando que me dou por minha conta um homem...rasgado, sujo, ferido mas cego. Respeitando o seu sigílio de médico ofereci-lhe com a mais cuidada e cautelosa ajuda os meus saberes...sarei-lhe as feridas como fazia Jesus, enchi-lhe o estomago e mais que cuidado e agrado, fiz-lhe sorrir. De agradecimento pronunciou-me um par de palavras que a mim, deixaram a dúvida e um certo desagrado: -" Obrigado jovem, apesar de não veres bem, tens bom coração". E entaõ pensei para mim, de como sabia um cego que eu não via bem? Nem uso óculos, e assim perguntei: - " Mas não vejo bem senhor? Como sera isso possivel se o mesmo sentiu os meus cuidados, senti-se melhor cuidado e melhor alimentado! ". E assim disse-me com a maior firmeza da seu estado: " Poucas são as pessoas no mundo que vêm realmente bem e eu...sou uma delas". Gota de água no meu pensamento, este velho se não é doido, é aldrabão e bandido, onde já se viu um cego ver? Onde já se viu um mundo inteiro ser cego? Incroyable: -" Mas como é possivel ver se é cego?" E mais uma vez a sabedoria veio ao de cima e o velho fizera-me sentir um cão que corre atrás de um pau : -" Meu jovem o problema do mundo é ver com os olhos e nunca com o coração, até tu quando tratas-te de mim foi porque simplesmente tens uma bata branca, não sentiste compaixão e apreço por mim e esse, sem dúvidas é o problema do Homem. Achas justo que eu esteja aqui porque um irresponsavel desligou o sinal sonoro dos semaforos? Ou que eu tenha sido preso e com isso perdido a minha visão por tentar ajudar criançãs no Sudão? Achas justa a lagrima que cai melancólica e dura no chão, o grito abafador, o socorro não ajudado e uma vida triste e sem fim? As pessoas que vivem assim vêm do coração os outros dos olhos e da ganância de possuir e ter mais e mais. Jovem não abras os olhos abre o coração...e VÊ". Levantou-se, pegou na bengâla e saiu. Eu vivo numa utopia sem saída, num mundo corrupto e sem escrúpulos, e afinal...eu sou o cego, eu não vejo.

Joaquim Graça

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Lagrimas de Prata

Sou médico num hospital, todos os dias confronto-me com a inevitável razão de viver, sabendo que a qualquer momento algo cortará o fio da minha vitalidade e espirito, eu saberei prontamente e sem fugas a verdade, da morte. A morte é ingrata, é triste, é afogante, dura e sem motivo ou critério de escolha. Vejo todos os dias lagrimas cair no chão, estendendo-se num rio de prata e tristeza, de onde os sentimentos e a dor, deixam-me sempre apreensivo, apatico, palido e sem fisura ou coragem para enfrentar certos momentos. Não sei se sera por nunca ter chorado ao pé destas familias que pedem misércordia e um presumivel céu a Deus para o seu ente querido. Mas... num simples dia de trabalho vi um outro alguem morrer sem ninguem ao perto a rogar a sua vida, ou a pedir algo a Deus...estranhei...foi então que vi a face palida e sem vida de Robert e ai caiu-se-me as pernas , os braços, cabelos e um rio de lagrimas...de prata. Robert era meu amigo desde infância, desde de cedo perdeu a mãe e após completar 18 foi-se-lhe o pai. Não tinha avós, irmãos, tios, primos ou amigos, tinha-me so a mim...ele morreu, foi-se simplesmente, doi-me a alma, a cabeça, tenho o coração enterrado nos mais duros musculos do peito. Foste-te para sempre, mas deixas-te-me a nostalgia, a revolta, a dor, o esbatimento e um mundo sem cor. Mas agradeço-te por teres ido, fizeste-me chorar lagrimas de verdade, lagrimas de prata que igual aos outros estendiam-se cheias de sentimentos e tristezas...no chão.


Joaquim Graça (29/09/2010)


1º Heterónimo de' O Camões Preto

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Na toca

O Bongo toca e cada bichinho barulheto entra na sua devida toca. Uma coruja chega com folhas de papel e os bichinhos tiram para fora algo parecido e bicudo a um pincel. A toca não se acalma e só se ouve guichinhos abusadores, cada bichinho difere-se do outro a partir da sua inteligência, rebeldia e cor. Pincéis voam e bichinhos rebolam contentemente no chão, a coruja chateia-se e cai-se-lhe uma pena...Um bichinho é expulso da toca, a coruja manda-lhe para o frio e coitado do pequeno diabinho grita para a ditadora dizendo que ela tem cio.

O Camões Preto

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A Saudade

A saudade é algo que nem Deus consegue explicar, se cá estivesse. A saudade é um dos mais dolorosos sentimentos que há a sentir neste mundo. Saudade de alguém, de um bicho, de um animal, de um sorriso, de um lugar, de um tempo, de um beijo ou mesmo de um simples olá. Bem eu sou um pedaço de carne humana que vagueia neste mundo, um pedaço que apesar de muitos pensaram não ter outrora sentimentos, declara sentir neste momento um dos mais duros que Deus fizera-me sentir…a saudade, a simples e dura saudade.
Sinto saudades de diversas coisas mas que certamente neste pedaço de papel que no qual escrevo estas linhas não significariam nada, a não serem simples palavras… de tanta saudade destaco a que sinto de ti…sim de ti que estás longe de mim, penso como estas, com quem e o que fazes…lembro-me de cada sorriso teu, de cada palavra expressada, de cada pedaço do teu corpo que eu…ainda penso em ter. Sei que as minhas saudades são poucas para as que deviam ser, deviam ser mais, devia estar a morrer, a pedir, a rogar, a chorar rios e rios por não te ver. Mas eu nunca vi um homem admitir que chora. E isso hoje eu não admitirei…

O Camões Preto
Escrita em África 16/07/10

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Ela

Já tive branca, preta, mulata, morena e loira. Santomense, Angolana, Portuguesa, Russa e até uma Cabo-Verdiana. Todas elas marcaram na minha vida é certo, umas positivamente e outras… bem só a dor guardada sabe. Recordo-me de cada detalhe delas e infelizmente é por culpa dos mesmos que sinto saudades e arrependimento por muitas das coisas que fiz…desculpem-me, mas nunca fui nem serei perfeito, isso garanto. Vem-me a cabeça saudades de uma língua grande, dos olhos verdes, dos beijos longos…do meu tubarão. (E de muitas mais coisas, mas que há que se esconder ). Fiz muitas chorarem e sofrerem mas até hoje só sinto-me triste e desapontado por ter feito uma pessoa chorar…tu.
Sim, tu que me deste a luz, após teres-me carregado durante 9 longos meses, de enjoo, dor e medo. Aguentas-te cada birra minha…amamentaste-me, banhaste, ensinaste o que era um pedaço do mundo e a cada ferida que curaste mostraste que mãe é mãe e eu só tenho que agradecer por ainda te ter. A idade aumenta e o preço das coisas também, mas tu mulher africana, lutadora e trabalhadora corres por mim todos os dias, passas fome para me ver comer, gritas e te preocupas a cada hora que não me vês, não me ouves ou sentes o meu respirar…irra mãe galinha mas mãe minha, eu sonho em poder dar-te tudo do mundo eu tenho por certo que por ti comprava montes, praias e lojas inteiras, mas valorizando sempre um conceito teu… “ o dinheiro não compra amor, esse semeia-se que nem trigo e cresce a velocidade de uma erva daninha”.
Eu posso ter saudades de muitas, mas só tu minha mãe…só para ti minha mãe…eu irei chorar quem nem bebe, esperando o teu conforto quente…hoje e sempre, pois tu me fizeste nascer.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Longe...?

À horas que estou afogado em lembranças, pensamentos e momentos. Mas tento sempre não afogar-me neste lindo mar. Sim, neste azul e limpo mar onde as ondas se encontram com a suave brisa do vento, e se convergem num forte e estrondoso rebentamento naquelas rochas ali ao pé silvestres. Onde deito-me também neste fino e dócil areal. Areal de oiro é o que chamam-lhe a ele, inveja de não o ter muitos lá foram reclamam-no também, mas o que é de África mas nenhuma parte do mundo tem. Mas não estou somente longe em quilómetros, ou de um continente a outro. Estou longe de pensamento e longe de mim. Eu longe neste areal sinto saudades de ti, ele ou ela, e ela dentro de mim. Carrego cada palavra e sentimento no meu cofre mais precioso, mas sinto-me inteiramente perdido porque assaltaram-me e roubaram dele mais do que uma pessoa…duas. Ahah ironia forte, sim, vivo um momento de nostalgia e dúvida crescente, a cada dia que passa pergunto-me que futuro darei ao meu corpo, que futuro darei a minha mente, vida e espírito. Mas antes de tomar alguma decisão cito neste pedaço de papel que no qual escrevo, que o humano pergunta-se sempre sobre a sua vida no momento que esta Longe mas, volta sempre a casa e escolhe um melhor destino…se tiver verdadeiro amor.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

No escuro...

Está escuro…muito mesmo. E é a partir desta escuridão que aproveito-me de ti. Tu nesta intensa escuridão não vês nada, mas eu munido de estes olhos de hiena ataco-te horas sem fim. As hienas têm armas mais que letais… cheiram, atacam e comem por inteiro suas presas. Nesta escuridão considera-me este assassino da natureza…nesta noite eu te considero minha presa. Com toque de Midas eu transformo cada parte do teu corpo em ouro e com a força de Hércules levanto com todo o esplendor o gigante Adamastor …
Neste escuro está calor e tu pensas estar num sonho. Mas nenhum assassino garante a sua presa se este sonho não se transformará num escaldante pesadelo. Que nem rato que quando morde, sopro cada parte que do teu corpo belisco. Que nem bebé procuro ternura nos teus seios e como criança inocente passo delicadamente a mão … e tu quem nem recém nascida desabafas os primeiros esguichos. Hércules tem agora Adamastor na mão, ele tal e qual cobra cuspideira cospe, e ela de revolta e dor grita até não poder mais, e afinal???? Os humanos são autênticos animais…na escuridão.

O Camões Preto